Sono Praiano (Dâmaris Lívia)



Hoje o mundo acordou triste, chocado, com raiva, dolorido e cheio de eufemismo pra falar da realidade.
Hoje eu acordei, meio sonolenta sentei-me em frente à televisão e vi meu sono ir embora e ser substituído pelo choque e repulsa. 
Hoje, hoje, hoje... triste saber que os sentimentos que permeiam o hoje irão embora na próxima semana. 

Me senti na incumbência de falar sobre isso, de crônicar sobre isso. Vi uma criança morta na praia pelo o egoísmo das grandes potências. Vejo nas redes sociais pessoas em uma comoção total, e dói saber que elas estão dentro de uma massa de manobra que é comovida, mas não sabem nem o nome do pobre menino, não sabem o motivo da morte, não entendem que o egoísmo que tanto criticam está nelas.

Mas permita-me esclarecer-lhes melhor. Essa criança tinha três anos de vida. Três. Seu nome era Aylan Kurdi. Sabem o significado do nome dele? Gracioso, amável. Não duvido que ele assim o fosse. Uma criança síria, chamada Aylan, graciosa e amável, de três anos de idade, morreu na praia. Permita-me chocar-lhes mais, ele tinha um pai: Abdullah, que perdeu também a esposa, e o outro filho de cinco anos. 

Eles fugiam do Estado Islâmico, pediram duas vezes para saírem da Turquia e irem até à Grécia. Mas não os deram ouvidos, e a família teve que achar seu próprio jeito de sobreviver. E então o naufrágio aconteceu. 

E então a morte chegou. 

Eu choro diante dessa cena. Choro, porque me ponho no lugar. Choro, porque sei que poderia não acontecer. Choro, devido ao egoísmo das sociedades europeias e sua xenofobia repugnante. Choro porque sei que enquanto não abrirem os olhos, isso continuará a acontecer. 

Choro porque sei que as pessoas que ouvem a morte daquela criança e se comovem e gritam "ISSO É EGOÍSMO DA EUROPA! XENOFÓBICOS" ignoram uma criança que chora no sinal. Desvia de um adolescente porque é negro. Diz que pobre é pobre porque quer. Reclama dos asiáticos, africanos e indígenas porque sua cultura é "estranha demais". Fala que todo negro é pobre. E ainda conseguem exclamar "Eu não sou preconceituoso, mas...". Decepcionante.

Lembro que quando eu era criança, meus pais me levavam a praia, eu brincava na areia, comia camarão, e dizia como a água do mar era salgada. Quando eu cansava - meus pais amavam deixar a praia de tardezinha -, eu deitava no colo do meu pai ou da minha mãe e dormia ouvindo o som do mar e as conversas alegres dos dois. Era meu sono praiano. 

Odeio usar eufemismos pra falar da realidade, mas não consigo não me doer por aquela criança. 

Descanse em paz, Aylan, tenha um bom sono praiano.
(2012-2015)

Dâmaris Damasceno.




Um comentário:

  1. Não consigo chorar diante disto, não consigo nem sequer me emocionar mais diante destas tragédias que nos cercam; tamanha é cauterização emocional e psicológica sofrida, não apenas por mim, mas por diversos humanos ao redor deste belo planeta. Nem por isso sou uma pessoa má, prefiro ser indiferente a ser hipócrita; ficar calado a falar palavras que não saiam do fundo da minha'lma.
    Não há um único culpado neste problema a ser apedrejado sozinho por estes crimes para com a humanidade, mas uma cadeia de culpados onde uma imensa bola de neve cresce e se avoluma atropelando sem dó suas vítimas, muitas vezes inocentes. Não sei se isto lhe é lembrado, mas em 1972, 1994, 1995, 2014 e agora em 2015 se repete. O que se repete? Mais um ataque da mídia ao sistema burocrático racional e sem um pingo de remorso quanto aos desastres e traumas causados a crianças de diversas etnias.
    Enfim, como disse, já estou com a mente cauterizada e o psicológico exausto. Peço perdão se soei presunçoso ou até mesmo incoerente e não-humano.

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