Madrugadas (Dâmaris Livia)



Queria saber quem inventou o termo “madrugada”. Quem passou a primeira madrugada em claro, e quem – primeiro – teve medo dela. Há quem diga que a madrugada é dos estudantes fervorosos, há quem diga que é dos solitários, há quem diga que é dos amantes, há quem diga que é dos que farreiam, e há quem diga que foi a madrugada foi feita para dormir.
         Certa vez, quando mais nova e alguns anos atrás, fui questionada por nunca ter passado uma madrugada em claro e choque daquelas pessoas – mais velhas que eu – me levou ao questionamento: o que havia de tão fascinante em ficar horas a mais acordado quando poderia estar no conforto de minha cama.
         E então que no mesmo ano em que me questionaram isso fui para a casa de uma amiga e junto a um grupo de amigos, passei a minha primeira madrugada acordada, sorrindo, ouvindo música, tendo aquele sentimento bom de juventude e alegria. E alguns meses depois, foi quando dei-me ao tempo de analisar o processo daquele momento que é um marco da vida de todo e qualquer “pré-adolescente.”
         Tudo começa nos planejamentos, as conversas, e cochichos sobre o que irão fazer enquanto todos dormem e as prendas que alguns sofrerão se entregarem-se ao sono. Então chega a hora, os seus pais – ou dos seus amigos – dormem e tudo começa, o quarto vira uma taberna adolescente. A adrenalina e emoção correm nas veias de todos, porque apesar de toda a diversão, o mínimo ruído externo e suspeito todos voltam a dormir com medo da ligação que seus pais podem receber reclamando do seu comportamento (coisa que talvez a crianças de hoje não entendam devido ao pouco respeito que tem ao seus pais, mas isso não vem ao caso nesta crônica).
         E chega a metade da madrugada e a velocidade das conversas diminuem, uns se entregam ao sono, - e ainda ousam se surpreender por acordarem sujos de pasta de dente! – outros olham com um olhar de decepção por quebrarem a promessa, perdendo sua honra, por desistirem faltando tão pouco. Mas ai os vitoriosos, que resistiram até o fim ganham a maravilhosamente recompensa de quando o sol nasce, vendo nosso planeta ficar um dia mais velho e caótico, e o orgulho de olhar com superioridade aos que perderam a batalha.
         Ah, mas meu caro leitor, se até aqui eu lhe fiz pensar que as madrugadas são a mais pura felicidade, sinto lhe dizer que você está completamente enganado. As madrugadas podem se tornar as maiores inquisições para o ser humano seja ele um romântico em crise ou extremamente apaixonado que passa horas com suas idealizações, seja o criminoso que passa as madrugadas acordado enfrentando seus fantasmas, seja o aflito que toda madrugada chora pelo passado. Seja o bêbado que vê seu refúgio em suas gotas de álcool para esquecer a miséria em que vive, seja a mãe inquieta pensa no futuro dos seus filhos.
         É, nunca madrugada foi o sinônimo de felicidade para todos.
         Alguns, que se deram ao trabalho de ler até aqui poderão dizer “mas que idealização da madruga é essa! Apenas mais algumas horas no relógio”. Bom, talvez sim, talvez nãom dou-lhe o benefício da dúvida, dou-lhe o benefício da dúvida. Talvez as crianças de hoje nunca entendam o que eu disse no inicio, talvez os de mais de idade discordem do que irei dizer por último. Mas de todas as funções que a madrugada pode ter, dormir é a última delas.

Um comentário:

  1. Acrescentaria que a madrugada é a hora de labuta dos escritores, que digitam arduamente páginas e páginas no silêncio e que só saem do transe, inebriado por tamanho clima de tensão em cada palavra, com o aviso do galo amigo. Ela é uma companheira, e há vezes que é nela em que desenvolvemos o tão estimado auto-conhecimento, horas assustadora, horas acolhedora. A criatividade corre solta. O único fato a se lamentar é ficar eternamente com aquele ar de morto-vivo, isso talvez até se torne um charme, talvez.. talvez. Retribuo-lhe o benefício da dúvida

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